O Milagre de Garapuá

Por Roberto Leon Ponczek
Pulei (fora) do  carnaval da Bahia que se tornou um negócio milionário para hotéis, camarotes e trios elétricos, mas um verdadeiro suplício para os desafortunados moradores da Barra e Ondina. São praticamente 10 dias de infortúnio quando somos invadidos por uma horda de 1 milhão de bárbaros que fazem Átila e seus hunos parecerem meninos travessos. Desembarcam na Barra, saltando de buzús lotados, já bêbados, mamando vodka Natasha e cachaça 51 diretamente dos gargalos. Acredito que nem Gengis Khan e seus temíveis guerreiros mongóis resistiriam por muito tempo, se acampassem no carnaval da Barra, eles certamente bateriam em retirada assustados pelo barulho ensurdecedor das massas ensandecidas por cacofonias insuportáveis denominadas de axé music e pagode baiano.

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Para fugir deste inferno dantesco, pedi asilo político- estético-musical à família Goes-Pestana que me acolheu, abrigando-me por alguns dias em sua ampla casa na praia de Garapuá. O lugar é pouco conhecido até dos baianos devido a seu difícil acesso. Para chegar a esse pequeno paraíso tivemos que atravessar a Baía de Todos os Santos, enfrentando filas no ferry boat, (1:30 hora fora o tempo de embarque e desembarque), depois pegar uma van até Valença, atravessando a Ilha de Itaparica e passando por Nazaré das Farinhas (2:30h); no cais de Valença embarcamos  numa lancha rápida que deslizou pelo delta do  rio Una, com direito a magníficos cenários e manobras arrojadas dentro de estreitos  igarapés (50 min), chegando até um pequeno ancoradouro perdido no meio do nada, a partir do qual  fomos rebocados por um trator, que ziguezagueou driblando areais e lamaçais, chegando finalmente a um minúsculo povoado e, em seguida,  até a praia, em cerca de 45min. Como viram, foi uma aventura ecoturística digna de Crocodilo Dundee ou Indiana Jones. Mas ao se chegar na pequena e bucólica enseada de Garupuá, percebe-se que o esforço valeu a pena.

Foi só vestir o calção de banho e submergi em águas cristalinas habitadas por cardumes de peixes coloridos que vieram comer nas minhas mãos; atravessei uma maré baixa de cerca de 300 metros (devido ao formato de ferradura da praia é uma das mais extensas do Brasil) com piscinas naturais que me fez lembrar a travessia do Mar dos Sargaços que os judeus fizeram para escapar dos egípcios; embrenhei-me por vastos manguezais em estado natural, sendo observado apenas por um bando de fêmeas de ganhamuns que iam desovar na maré. À noite, o céu límpido, sem ser ofuscado pelas luzes de qualquer cidade próxima, permitiu- me ver com clareza a nossa galáxia, a Via Láctea, bem como todos os planetas visíveis do sistema solar, provocando-me aquele sentimento que Einstein denominou de “assombroso espanto” que estimula os cientistas a buscar explicações para tamanho mistério. Entendi também quando ele disse que só havia duas maneiras de conceber o universo: admitindo que tudo é um milagre ou que nada é um milagre. Preferi pensar da primeira forma e percebi que a maré que atravessei, os peixes que comeram na minha mão, os ganhamuns que me seguiram nos manguezais, a Via Láctea, os 5 planetas que identifiquei, assim como eu mesmo, fazemos parte de uma única e infinita trama divina e milagrosa: o Universo.
Enfim, Garapuá é um Shangri-la perdido entre os badalados balneários de Morro de São Paulo e Boipeba que já foram dilapidados pelo turismo convencional. Para provar a veracidade de meu relato, aqui vão alguns cenários que consegui captar com um tosco celular.

 

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3 pensamentos sobre “O Milagre de Garapuá

  1. Bonito texto e imensa aventura para dentro de si. Penso que nesse mundo barulhento a solidão é um luxo. Poder usufruir de seu próprio espírito e colher na natureza sentidos para o existir é um recurso filosófico de imensa riqueza. Obrigado por repartir com minha alma sedenta.

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