Uma Mensagem Vivencial de Pessach

A Alegria e a Tristeza: A Vida e a Impotência

Na tradição judaica vivemos a alegria e a tristeza no mesmo compasso da dança porque as duas fazem parte da coreografia da vida. É assim no casamento e na quebra do copo para lembrar a destruição dos templos e dentro deste contexto, outros eventos da história que temos que permanecer atentos para que jamais se repitam.

Cheguei de viagem fui imediatamente ao hospital ver um velho amigo querido que aos poucos se despede de nós neste nível de vínculo. Um adeus assistido e envolto de muito amor. Ele se animou em se alimentar e até cantou em hebraico bem na hora que a médica nos chamou para conversar. Um sono sagrado o faz companhia e é um presente para estender os ponteiros das horas ao mesmo tempo que encurta as dificuldades da existência quando a lucidez resolve dar um salto no portal de luzes acesas para a passagem.

Hora do asseio pessoal. Beijei as suas mãos falei “à vida “no seu ouvido (Le Chaim!).. Me dirigi ao estacionamento e peguei minha bike de volta para casa. Nem precisei sair do hospital para me deparar com uma cena alarmante: uma mulher dizendo que não queria mais a companhia do homem que insistia em faze-la mudar de opinião. Eu parei, olhei em volta e não avistei nenhum policial na redondeza. Fiquei observando para ver se ele iria respeitar a decisão dela. Mas que nada, a situação ficava cada vez mais grave. Pedi a dois homens para conter a situação, falei com o segurança do hospital e a resposta covarde e machista dos dois foi:

– Eu vou lá me meter em problema que não é meu… se fosse ela batendo nele, ninguém ia achar ruim”… assim mesmo! O segurança calado ficou e deu meia volta volver. Fiquei estarrecida com o que ouvi e resolvi ir de bike até o local onde o homem estava levando aquela mulher pela rua fazendo de conta que estava a abraçando, mas na verdade estava apertando o pescoço dela e fazendo ameaças. Nenhum policial na redondeza… nenhum!
Cheguei perto da mulher que estava prestes a entrar no carro daquele homem e perguntei:
– Precisa de ajuda?
Ela acuada olhou para mim e disse:
– Não

Fiquei devastada… me sentindo a pessoa mais impotente do mundo. E me deu um medo tão grande que saí de bike pela contramão. E se aquele homem resolvesse descontar a ira em mim? Carro é uma arma e no Brasil nem é preciso falar como a lei é cumprida, ainda mais na presença de covardes testemunhas.

Encontrei com alguns policiais de uniformes diferenciados no raio de 500 metros e perguntei porque eles não estavam lá nas mediações. A resposta foi:
– Não somos onipresentes. O comando mandou ficarmos todos aqui e assim ficaremos. Ordem é ordem.
Andei mais um pouco e encontrei mais três policiais e fiz a mesma pergunta. A resposta foi:
– Esta cena que acabou de contar está acontecendo em outros locais da cidade….somos poucos.

Os faraós e os seus servos continuam a existir em plena contemporaneidade. Segui meu caminho rezando para o meu amigo não sofrer na sua mais íntima travessia e clamando para aquela mulher sobreviver e ter forças para se libertar do seu algoz, sendo o medo o pior deles.
Sim, estamos vivendo tempos de saída do Egito para atravessarmos o Mar dos Juncos e/ou o Mar Vermelho, seja qual for a melhor tradução. E nesta marcha fica claro para mim que o contrário da vida não é a morte, mas sim a impotência. A impotência diante da morte é um veredito que temos que nos defrontar e encarar com humildade e sabedoria. A impotência diante da vida é um paradigma que temos que quebrar e superar com altivez e valentia. Na saída do Egito muitos israelitas desistiram de fazer a travessia e o desfecho, o passado se encarrega de contar e de nos fazer relembrar. Os que marcharam acreditando que o mar se abriria seguiram viagem no deserto por mais 40 anos e as crianças desta geração chegaram à Terra Prometida que continua sendo o nosso lar e o nosso maior desafio.

Ao viver este momento que se inicia depois do pôr do sol e no nascer da lua cheia de 15 de Nissan, eu peço ao Rei do Universo que nos dê forças para seguir viagem e que nos nutra de coragem para escolher sempre a vida como também nos desvencilhar das situações que a impotência possa nos enfraquecer ao ponto de colocar a nossa existência em risco.

Aqui neste meu texto há pelos menos duas passagens descritas: a do meu velho amigo que vida longa desfruta e aos poucos vai se desapegando e deixando leve a partida; e da mulher aparentemente desconhecida. Digo aparentemente porque nem sei o seu nome, mas ela representa toda a humanidade ameaçada pela atroz violência do aparentemente semelhante tão conhecido de todos nós.

Que a Luz se faça constante e o milagre se faça presente para que a sua, a nossa escolha de poder ser o melhor de nós aconteça. Rezo por você meu amigo e por você mulher. Vamos juntos marchando e acreditando na abertura do mar da consciência, do céu sem limites de redenção e da terra da nossa mais urgente promessa de libertação.
Amem
Chag Pessach Semeach
Jacqueline Moreno

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