Experimente falar de judeu

Por Gabriel Lopes Pontes

Me dê uma daquelas bem fortes aí, Zé, das que ‘cê tem entocada e sabe que eu só peço mesmo em ocasião especial, pra comemorar, ou pra me refazer de raiva, D’us benza, que já não sabem mais o que inventar pra apoquentar a vida da gente. É dessas mesmo que tem coral verdadeira dentro, de casco escuro, verde escuro, e tampa de rolha que eu quero, Zé, dessas mesmo que eu tô falando E não economize na dose que o coração velho já não ‘güenta mais desgosto e esse agora foi brabo… Esse mundo que a gente tá vivendo! Antes, ‘cê não podia mais falar de nêgo – não se aborreça comigo, Zé, de eu falar desse jeito, que ‘cê também nem é tão nêgo assim, tá mais pra cabo verde, e depois ‘cê é um nêgo bom, honesto, trabalhador –, agora de judeu também não pode. Que graça tem a vida, então, se um homem de bem já não pode se expressar livremente? Que tão falada democracia é essa que a gente não tem direito a uma opinião?

Veja você, Zé, e aproveite o embalo e bote mais uma pr’eu me refazer, que eu fui levar o computador de meu neto na lan house de Maurício e foi lá que se deu a baiúca. Eu nem precisava levar o bendito computador, que o computador é dele, quem usa é ele e o moleque é forte e tá de férias, passou direto, só me dá orgulho. Mas sabe como é tédio de aposentado, né, Zé? Falei pra ele deixe que vôinho leva e lá fui eu carregando ladeira acima aquele trambolho, que só me fazia pensar nos padecimentos de nosso senhor carregando a cruz pra nos salvar… Pois bem, a lan house de Maurício ‘cê conhece, Zé. Na parte de baixo é igualzinha a qualquer uma lan house, igual às lan house todas daqui e da Conchichina. Embaixo, a sala com os computadores todos, o povo todo futucando o teclado, ouvindo música nos fones, vendo vídeo de safadeza na frente de senhora e até de criança. Mas o que nem todo mundo sabe é que, subindo aquela escada de um lance só, que fica meio disfarçada, meio escondidinha lá no fundo, a gente dá numa oficina onde Maurício conserta notebook, tablet, essas coisas todas. Conserta e também revende. Eu bem achava que não era da renda de aceso a internet que ele pagava os dois funcionários, a moça e o rapaz, todos dois muito direitos, muito cristãos, mais o aluguel em bairro nobre.

Bairro nobre, sim. Digo de boca cheia que eu tenho que valorizar o lugar que moro e onde batalhei pra comprar apartamento, trinta e seis anos batendo ponto naquela maldita repartição; leite, só de saquinho, e ainda por cima botando água dentro pra poder render; cortando sapato velho pra fazer chinelo, refrigerante só em aniversário e dia santo, tudo pra meus filhos puderem ter vizinhança de gente decente e não tenho do que me queixar, ou, melhor dizendo, não tinha, pois até aqui tem essa praga infiltrada e o pior é que a gente nem descobre, que os desgraçados são brancos que nem a gente e tem até uns meio alourados, do cabelo bom. Se bem que eu soube que agora até nêgo quer ser judeu, veja você, Zé, como se já não bastasse.

Calcule que eu botei o PC do meu neto em cima do balcão, respirei um pouco, que tô até bem pra minha idade e fiz remo – remo, sim, senhor – mas também não sou de ferro, comecei a dizer ao rapaz qual era o problema e, não sei por que cargas d’água, disse que aquele safado do Bill Gates, aquele judeu – note que eu nem disse judeu safado, só judeu – vivia inventando coisa pra gente gastar dinheiro. Ora, veja você se isto tem alguma coisa de mau e se foi alguma inverdade que eu disse.

Levantou, então, um cara de meia-idade que tava no seu bem-bom, usando o computador, e que no seu bem-bom devia ter ficado. Eu até tinha visto o desinfeliz, mas cumé que eu ia adivinhar que ele era judeu, se nem uma gorra daquelas deles ele usava? Com uma calma de enervar, o fulano disse que não tinha podido evitar de ouvir meu comentário e que eu tinha, justamente, feito ele lembrar que tem sempre um judeu envolvido quando alguma coisa grande tá sendo feita, que eu com certeza sabia que Einstein, o criador da teoria da relatividade, era judeu; que Freud, o pai da psicanálise era judeu, que Marx era judeu – esse eu desconfiava – que assim era com Bill Gates e que até Jesus era judeu.

Eu bem que tava disposto a levar na flauta – conversar, pedir desculpa até, só pra não criar caso e estragar o dia por causa de judeu – mas quando ele botou o nome de nosso senhor naquela boca imunda, perdi as estribeiras e disse o que não se diz a cachorro, de judeu sujo pra baixo, filho de uma judia descarada, assassino de Cristo, tudo que tinha que dizer eu disse que não sou homem de levar desaforo pra casa e muito menos de judeu. E não é que o desgraçado riu? Riu e tinha até o sorriso bonito, os lábios finos, os dentes muito alvos, eu que não sou de ficar reparando beleza em homem, mas tenho que admitir, a verdade é pra ser dita aqui, ali e acolá e isso prova que até um tipo desses tem algo de bom. Aliás, diz que foi assim que eles infectaram a Alemanha, fazendo pose de galã, desencaminhado as moças de família, misturando o sangue deles com o delas pra desgraçar o povo alemão, até que Adolfo Hitler teve que fazer o que fez.

Pensei que ia botar o sujeito em seu devido lugar, mas o apocalipse de que falam as sagradas escrituras tá mesmo próximo – não esconda a garrafa, não, Zé, que se o mundo vai mesmo se acabar, pelo menos vamos tomar mais uma – pois, mais calmo do que nunca, o talzinho virou pra todo mundo que tava lá e perguntou se tinham ouvido bem o que eu tinha dito e ninguém teve jeito de dizer que não, que eu disse mesmo e no tom e na altura que a ocasião pedia. Então, que era todo mundo testemunha dele e ele me perguntou se eu sabia que racismo agora dava cadeia e era crime inafiançável. E eu disse que ele, não bastasse ser judeu, ainda por cima era burro, mas muito burro mesmo, pois essa lei era só pra defender nêgo. Daí que ele veio todo arrogante me explicar que judeu também era raça e pediu pra moça ligar na hora pra delegacia da discriminação racial. Tava a coisa nesse pé, quando Maurício desce a escada correndo e é só doutor, pelo amor de D’us, doutor, deixe disso, doutor, que não sei o quê, que não sei o quê mais, o senhor vai comprometer meu estabelecimento e todo mundo aqui lhe quer tanto bem… Eu crente de que Maurício tava finalmente reconhecendo minha posição social e me dando o tratamento merecido, que ele a vida toda só me chamava de “Seu”, já passava mesmo da hora de me chamar de doutor. Foi só quando Maurício disse que eu era uma pessoa de bem e que eu não tinha dito por mal que eu entendi que era com o judeuzinho que ele tava falando e que o doutor era ele, o judeuzinho, doutor não sei das quantas, aquele borra-botas. Foram dar título de doutor a essa gente e é o que se vê.

O cara empinou o maldito do nariz de judeu lá dele, saiu da lan house com ares de dessa vez passa e eu com cara de besta e se meu neto não tivesse tanta precisão do computador e tivesse outro lugar por perto pra consertar eu nem lá não voltava mais, que não tô pra ser destratado por comparsa de judeu nem pra freqüentar lugar onde essa racinha aparece. Desce mais uma aí, Zé, e bota na conta do judeu. Se ele não pagar, nem eu.

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