Parashat Devarim

Por Luciano Ariel Gomes

Uma das Mitzvot mais importantes que no judaísmo é a de cuidarmos uns dos outros (Kol Israel arevim zé bazé – Shavuot 39a – Talmud). Parte desse cuidado certamente inclui corrigirmos uns aos outros quando estamos procedendo de forma inconsistente com a Torá (Vaicrá 19:17-18). Um aspecto sensível dessa Mitzvá é sabermos como proceder nessa correção. Não obstante, deixar de fazê-lo é incidir numa grave transgressão em si mesma. E por quê? Ora, nossa vida é pautada no conceito de consequências. Toda vez que agimos com sabedoria e baseados em valores éticos, temos a convicção que as consequências, pelo menos no que tange nossa espiritualidade, nos serão favoráveis. Se, por outro lado, somos irresponsáveis e descuidados em relação aos nossos valores, esperamos consequências condizentes a isso.

Ao deixarmos nosso semelhante seguir em seu erro transgredimos duas vezes. A primeira, por não fazermos o que nos é diretamente ordenado pela Torá, e a segunda por sabermos que nosso semelhante sofrerá as consequências de seu erro e nós temos a possibilidade de alertá-lo e evitar não apenas o seu próprio sofrimento como o de outros que possam ser vítimas diretas ou indiretas de seu delito.

A Parashat Devarim inaugura o livro homônimo da Torá, que é também o último do total de cinco. Logo no início ele nos surpreende como uma interessante diferença em relação aos demais livros. Sabemos que a Torá é também conhecida como A Lei de Moisés (Malachi 4:4). A nossa tradição, sem embargo, nos ensina que ela tem origem divina. O que os outros quatro livros têm de diferente em relação a este (Devarim) é que nos outros Moshé é uma das personagens. Aqui ele se dirige ao povo na primeira pessoa e relata ao povo uma série eventos vividos por eles, daí os rabinos terem lhe deram o nome “Mishnê Torá” – ‘Repetição’ da Torá. Ainda assim, os rabinos mantiveram o seu status de parte da Torá Min Hashamaim (a Torá que vem dos Céus).

Ao falar ao povo, Moshé começa a admoestá-lo em relação aos erros cometidos ao longo da peregrinação de quarenta anos pelo deserto. No entanto, ao prestarmos atenção à forma que ele o faz, notamos que ao invés de ir diretamente ao assunto ele menciona os locais por onde o povo peregrinou. Ao fazê-lo, ele os lembrou de como eles se comportaram ali, sem precisar dizer exatamente quais transgressões foram cometidas. Só depois ele passa a falar de pecados específicos.

Podemos aprender dessa atitude de Moshé que corrigir quem está em erro é importantíssimo. No entanto, é necessário saber como devemos nos aproximar da pessoa, que atitude adotar e que palavras usar.

Segundo o Rabino Avigdor Bonchek, isso não passou despercebido por RASHI, o grande comentarista da Torá. Ele pontuou que Moshé teve todo aquele cuidado devido à honra que Israel tem. Por isso, ele não podia se dirigir ao povo de uma forma que pudesse criticá-lo abertamente ou envergonhá-lo. A partir disso, podemos concluir que, devemos proceder da mesma forma, ao cumprirmos a Mitzvá de corrigir o nosso semelhante, uma vez que cada judeu traz consigo a honra de Israel.

Tishá B’Av

Ainda nesta parashá, após o cuidado inicial, Moshé passa a mencionar alguns delitos de forma mais direta, como foi mencionado anteriormente. Um desses erros foi o triste episódio dos espiões, em que apenas dois dos doze enviados trazem relatos positivos. O povo decidiu escutar os dez relatos negativos tendo chorado e lamentado. Aquela data era o nono dia do mês de Av. Segundo nossos sábios, devido ao fato de o povo ter chorado sem razão, afinal O Eterno teria lhes dado ali mesmo a vitória, aquela data seria um dia em que teríamos motivos para chorar. Assim, vários eventos trágicos aconteceram nessa data. Sendo as destruições dos dois Templos os mais significativos, apesar de não terem sido os únicos. É interessante notar que Moshé atribui a esse fato sua exclusão da Terra de Israel (Devarim 1:37), e não ao fato de ele ter ferido a rocha (Bamdibar 20:11). Naquela ocasião ele tinha falado de forma dura ao povo. Alguns comentaristas, como Abravanel, chegaram a associar o episódio dos espiões como a real razão para Moshé não entrar na terra. Aqui, Moshé parece confirmar isso.

De qualquer forma, fica a lição de que não apenas devemos corrigir nossos semelhantes, mas também a nós mesmos. Tishá B’Av nos lembra que foi por causa da nossa falta de fé como povo fez com que o povo judeu precisasse enfrentar as adversidades relacionadas a esse dia. Confessar nossos erros, individuais e coletivos, tem o poder de restaurar a honra de Israel a seu devido lugar.

Que neste Tishá B’Av possamos compreender que se fizermos nossa parte esse dia se transformará de um dia de luto em um dia de regozijo, exatamente como nos ensinam os nossos sábios.

Shabat shalom!

Referências:

TANAKH – the Holy Scriptures – The New JPS Translation According to the Traditional Hebrew Text – The Jewish Publication Society – 1985

myjewishlearning.com

aish.com

 

 

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